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7- Maria Yvone Chaves Mauro
A Postura de estudantes de enfermagem: uma preocupação docente/discente

Maria Yvone Chaves Mauro (1)
Andreia Fontes da Paz (2)
Carla Christina Chaves Mauro (3)
Araci Carmen Clos (4)

RESUMO
Estudo sobre a postura de estudantes de graduação em enfermagem, objetivando avaliar as condições de trabalho acadêmico em enfermagem hospitalar, justificando-se pela alta incidência de fadiga ocupacional em enfermagem: MAURO (1979); MONDELLO (1994); ESTRYN-BEHAR (1996). Utilizou-se abordagem quanti-qualitativa usando questionário com entrevistas, a 30 estudantes, em um Hospital Universitário no Rio de Janeiro/Brasil. Os resultados revelaram que os estudantes estavam irritados, fatigados, referiram dor nos membros inferiores, região lombar e no pescoço; faziam intervalo entre as atividades e a maioria considerou às condições de estágio boas. Conclui-se não haver consciência dos princípios ergonômicos e sugere-se um Programa de Educação em Ergonomia.
Palavras Chave : Postura, Enfermagem, Ergonomia

I INTRODUÇÃO

A postura dos estudantes de enfermagem tem sido objeto de preocupação dos docentes, embora de maneira muito tênue, considerando que conseqüências de natureza anti-ergonômicas, possam advir das posturas incorretas no desempenho das práticas de enfermagem no ambiente hospitalar.

Com base nesta premissa, os pesquisadores desta área tentaram buscar nos fundamentos da Ergonomia de ESTRYN-BEHAR [4], a forma de interpretar e avaliar as condições de trabalho dos estudantes, analisando o funcionamento dos serviços onde os estudantes atuam e o desempenho dos mesmos na execução de atividades de enfermagem no hospital visando avaliar de forma exaustiva as capacidades e limitações destes, em relação ao sistema homem/máquina, no seu contexto biológico, micro-social, organizacional, sócio-cultural e sua interação com o usuário do sistema hospitalar - o cliente.

Segundo MONDELO et al [7], a Ergonomia tem como objetivos básicos:

  1. melhorar a inter-relação homem-máquina na atividade humana;
  2. controlar o meio ambiente do trabalho, considerando o posto de trabalho e a interação comportamental com relação à adequação do trabalhador ao sistema de trabalho;
  3. gerar interesse pelo estudo de uma determinada atividade no sentido de identificar sinais significativos de desconforto que possam ser superados pelo homem;
  4. definir os limites de ativação do homem, detectando e corrigindo riscos de fadiga física e/ou psíquica;
  5. criar bancos de dados para que os coordenadores de projeto, possam ter conhecimento suficiente das limitações do sistema homem-máquina, de tal forma que se evite erros nas suas inter-relações.

No Brasil/MT, a Norma Regulamentadora Nº 17 (NR-17 / Brasília [2], no item 17.1, determina que a ERGONOMIA "visa estabelecer parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho às características psico-fisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar o máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente".

Segundo MAURO [5] [6], as questões relacionadas com atividades físicas e saúde envolvendo os aspectos posturais, tem tido pouca importância no meio sócio-cultural. Entretanto, estes aspectos não devem ser restritos apenas ao processo ensino-aprendizagem, mas devem ser relacionados à integridade da natureza humana, essencial para a formação do homem, bem como para seu bom desempenho humano, como no caso da Ergonomia aplicada aos usuários criança e terceira idade.

O Ministério da Educação e do Desporto e da Saúde [1], vem promovendo junto aos profissionais dessas áreas, uma grande reflexão à respeito dos problemas posturais e suas conseqüências em nossa sociedade porque é na é na adolescência que geralmente aparecem os primeiros problemas físicos, em sua maioria, decorrentes do excesso ou inadequação dos exercícios ou de problemas posturais que se não forem corrigidos neste período, que podem acarretar sérias conseqüências na fase adulta.

Adolescentes, entram na força de trabalho, sem o conhecimento e a preocupação com a postura correta, vícios posturais que podem advir, seja do excesso de carga de trabalho, ou simplesmente pelo erro postural decorrente de seus estilos de vida.

No setor de saúde, grande parte de seu orçamento, tem se destinado ao tratamento de doenças causadas pelo sistema locomotor, tais como lombalgias, artrites, osteoporose, artrose e outras, sabendo-se que muitas dessas patologias poderiam ser evitadas, por meio de um trabalho preventivo, que pode ser desenvolvido, prioritariamente, em instituições educacionais, posteriormente no setor de trabalho.

II IMPORTÂNCIA DO ESTUDO

Tratando-se de estudantes de enfermagem, adolescente recém ingressados na Universidade, estes certamente não diferem dos demais, em sua maioria. Identifica-se uma realidade preocupante em termos de postura, uma vez que a enfermagem é uma profissão que utiliza muito esforço físico e mental, concentrado na alta responsabilidade de decisão imediata em relação ao usuário-cliente.

Estes futuros profissionais estão propensos à muitos esforços físicos e posturais, além de que, o objeto de seu trabalho, não é apenas um ser inerte, mas sim, um ser humano, cuja dinâmica dos movimentos, de ambos pode ser imprevisível, exigindo muita destreza e conhecimento da parte do trabalhador - profissional ou do estudante - sob pena de haver risco para ambos - cliente e profissional .

Segundo as observações empíricas, dentre as patologias mais freqüentes dos estudantes de enfermagem são decorrentes da má postura e de excessos físicos.

III OBJETO DE ESTUDO

A Pesquisa tem como seu objeto de estudo a Postura dos estudantes de Enfermagem, durante a administração de cuidados em enfermaria do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), e a avaliação das condições de trabalho dos estudantes.

Neste sentido questiona-se:

    .

  1. Os estudantes de enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro tem problemas de postura no exercício de suas atividades no hospital ?.
  2. As condições onde exercem suas atividades favorecem a ocorrência de vícios posturais ?.
  3. Que condições de trabalho (estudo) favorecem o erro postural ?.
  4. Quais os riscos posturais mais incidentes no desempenho de suas atividades hospitalares ?.
  5. Os problemas posturais podem ser preveníveis em termo de educação postural ?.
  1. OBJETIVO.
  1. Verificar os aspectos posturais dos estudantes de enfermagem durante a administração de determinados procedimentos..
  2. Observar as condições de trabalho no setor hospitalar.
  3. Analisar a postura de estudantes de enfermagem, durante a administração de cuidados em enfermaria no Hospital Universitário Pedro Ernesto -HUPE..
  4. Identificar os riscos posturais passíveis de correção..
  5. Com base nas correções viáveis em termos pessoais, recomendar um trabalho educativo com os estudantes sobre problemas posturais e meios de preveni-los..
  1. METODOLOGIA.
  1. Período de Estudo: Início: Janeiro/98 Término previsto: Julho/99.
  2. Local de Estudo:
    Designou-se o Hospital Universitário Pedro Ernesto como local de estudo, mediante autorização prévia, devido a sua ligação com a Universidade na qual se realiza a pesquisa, e ser este o hospital onde os alunos realizam a maior parte de suas atividades acadêmicas. Foram determinadas as enfermarias 11 e 12 , justificando-se pela assídua presença dos alunos para a realização das diferentes atividades acadêmicas.
  3. População Amostral:
    Como atores sociais foram designados os estudantes de graduação em enfermagem, desenvolvendo atividades acadêmica principalmente no internato, onde se intensificam as atividades hospitalares.

  4. Método:
    Usou-se uma abordagem quanti-qualitativa, método descritivo, observação assistemática e aplicação de um questionário para coleta de dados, que serão posteriormente analisados.

  5. Procedimentos/ Instrumentos
    A pesquisa foi conduzida através de uma abordagem quanti-qualitativa, utilizando-se três procedimentos básicos:

    1. Observação assistemática do contexto onde se desenvolvem as atividades dos estudantes de enfermagem no ambiente hospitalar, com o auxílio de um roteiro para identificar os aspectos relacionados ao posto de trabalho e sua inter-relação com os trabalhadores no local habitual de trabalho..
    2. Inquérito focalizando os estudantes no desempenho de determinadas atividades no setor hospitalar, com o auxílio de um instrumento composto de um "check-list", objetivando coletar dados detalhadamente, a fim de identificar as causas dos vícios posturais, eventualmente presentes nos estudantes de enfermagem, e um.
    3. Questionário objetivando identificar a percepção dos mesmos, sobre possíveis sintomas que caracterizem problemas de saúde relacionados com a postura inadequada, durante o desempenho funcional e/ou posterior as horas de trabalho. A validação dos instrumentos, foi feita mediante a opinião de juizes identificados de acordo com a especificidade do objeto de estudo e tipo de instrumento..
  1. Coleta de dados e análise de resultados

    A coleta dos dados foi desenvolvida por estudantes bolsistas, no horário preconizado da bolsa.
    A análise e a interpretação orienta-se pelas características apresentadas, em relação aos fundamentos teóricos da Ergonomia, das Doenças Profissionais, das Normas Legais, para prevenção de riscos da postura incorreta e Princípios Científicos do trabalho de enfermagem.

  1. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS PARCIAIS

Foram entrevistados 30 alunos de Enfermagem do 7º período, no 1º e 2º semestre, com 6 a13 meses de internato, em 1998, carga horária de estágio, no de 8 horas diariamente e 12 horas de plantão nos finais de semana.

População investigada: 83% feminina e 17% masculina, com prevalência na faixa etária jovem entre 20 a 25 anos.

Do total, 43% já sentiam algum mal-estar na coluna antes de iniciar o internato, incidindo principalmente na região lombar quando faziam esforços repetitivos e pegavam pesos; 33% procuraram tratamento médico, sendo indicado principalmente fisioterapia, natação e correção postural. 60% declararam ter horário de descanso durante o plantão e 40% negaram; nos casos afirmativos o descanso era no horário de almoço, com apenas uma hora de duração.

Na avaliação sobre o seu estado físico e mental, os alunos informaram que ao final do plantão apresentavam-se:

-Dor nos membros superiores: 70% não / 30% sim;
-Dor nos membros inferiores: 90% sim / 10% não;
-Irritados: 53% não / 47% sim;
-Dor nos quadris: 77% sim / 23% não;
-Dor nas costas: 73% sim / 27% não;
-Fatigados: 73% sim / 27% não;

No que concerne ao seu desempenho:

  • 96% dos alunos prestam assistência integral para 02 a 06 pacientes;
  • 60% intercalam suas atividades entre as posições em pé e sentadas;
  • Em média, realizam o banho no leito para 01 a 04 pacientes acamados, diariamente: 80% realizam essa atividade acompanhados de outros profissionais, necessitando de 30 minutos a 01 hora, para cada paciente, e somente 30% faziam um intervalo entre essa atividade;
  • 63% informaram que a mudança de decúbito dos pacientes acamados, era feita com acompanhamento do outro profissional, para torná-lo mais ergonômico;
  • 83% solicitaram ajuda para o transporte dos pacientes acamados;
  • Quando solicitados para indicar a postura habitual, somente 47% marcaram a figura correta para o levantamento de pesos (materiais, equipamentos e pacientes); 53% marcaram a figura errada, concluí-se que somente 47% realizam a postura correta;
  • 83% consideraram que o seu trabalho envolve posicionamento estático do tronco, com flexão entre 30 e 60 graus;
  • 93% avaliaram não ser satisfatório o tempo para descanso, consequentemente, retornam para atividade com fadiga;
  • Somente 13% realizam algum tipo de relaxamento após as atividades profissionais: natação, ginástica, hidroginástica, alongamento e meditação, enquanto 87% não realizam nenhum relaxamento, justificado pela falta de tempo;
  • Aplicado o check-list de COUTO [3], segundo a percepção dos alunos investigados, as condições ergonômicas apresentam uma variação entre boa (70%) e razoável (27%), com apenas 3% ruim.

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS
  2. O Estudo está em andamento, porém de acordo com os resultados alcançados parcialmente, já se aponta para conseqüências prejudiciais à saúde dos estudantes decorrentes de postura inadequada.

    Espera-se concluir o trabalho em tempo previsto, com a perspectiva de fazer a divulgação dos resultados com a proposição de um trabalho educativo com os estudantes de enfermagem bem como encaminhar sugestões para mudanças para o ensino de graduação de enfermagem e aos serviços onde se realizam a prática hospitalar destes estudantes.

  3. BIBLIOGRAFIA

    1- BRASIL - Ministério da Saúde. COORDENAÇÃO DE DOENÇAS CRÔNICO - Degenerativas. Postura Corporal: Interação dos Fatores Biológicos. Brasília, Ministério da Saúde/ Ministério da Educação e do Desporto, 1994.

    2- BRASIL - Mtb, SSST. NORMA REGULAMENTADORA 17: Manual de Utilização. Brasília, 1994.

    3- COUTO, H. de A. ERGONOMIA APLICADA AO TRABALHO – O Manual Técnico da Máquina Humana. Vol. I e II. Ergo Editora Ltda. Belo Horizonte/MG, 1995.

    4- ESTRYN - BEHAR, Madeleine. ERGONOMIE HOSPITALIÈRE : Théorie et pratique. Editions Estem, Paris, 1996.

    5- MAURO, M.Y.C. e col. FADIGA E ASPECTOS ERGONÔMICOS DO TRABALHO DE ENFERMAGEM. Revista Brasileira de Enf. , Brasília, 29 (4): 7 - 28, Out./Dez, 1976.

    6- MAURO, M.Y.C. FADIGA E O TRABALHO DOCENTE DE ENFERMAGEM. In: Cong. Brasileiro de Enf. , 31º Fortaleza / 1979, ABEn, Fortaleza, 1979, p. 58-59.

    7- MONDELO, Pedro R. ; TORADA, E.G. ; BOMBARDO, P.B. ERGONOMIA 1 - Fundamentos. 1ª ed. , Edicions UPC / Mutua Universal, Barcelona, 1994.

(1) Professora Titular do DESP/FENF/UERJ - Pesquisadora AI - CNPq Coordenadora de Pós-Graduação do Mestrado FENF/UERJ R. Marques de Abrantes, 64/1002 - Flamengo - cep. 22.230-061 Tel: (21) 587-6356 / 557-4020 Ÿ e-mail: mycmauro@uerj.br / mycmauro@uol.com.br

(2) Estudante de Graduação Faculdade de Enfermagem/UERJ Rio de Janeiro/BRASIL

(3) Arquiteta / Engenheira de Segurança do Trabajo / Aperfeiçoamento/Especialização em Ergonomia Rio de Janeiro/BRASIL

(4) Assessora da Coordenadoria de Campi Regionais- UERJ. Faculdade de Enfermagem/UERJ Rio de Janeiro/BRASIL